28 de ago de 2007

Contos da Areia

QUATRO

Nosso amado Papa, nosso tão bom e tão amado Papa, adentrou a Biblioteca Secreta sob a Basílica de São Pedro, construída nas galerias e catacumbas ainda do tempo de Vaticus, alguma arquitetura etrusca ainda persistia nas ante-salas fortificadas ao Cofre do Índice. Após a agulhada no dedo indicador e leitura genética da santa gota de sangue extraída, a porta de metal enésimo*é aberta para o pontífice e fechada logo em seguida.
Ele olhou a cabeça decepada a mando de Salomé de João Batista e sua boca costurada como se sua monstruosidade continuasse sendo para o supremo sacerdote uma novidade. Os lábios ressecados foram detidos, pois suas profecias e verdades se revelavam mais confusas e incômodas a cada ano. A cabeça o acompanhou com olhos curiosos e condenatórios.
Nas estantes, tomos, papiros e encadernados. Quase todas as bíblias cristãs. As mais relevantes cópias do Alcorão e do Torá. As bíblias sombrias. A Bíblia do Diabo. Muitas versões desta, aliás, inclusive aquela que cada folha é o couro inteiro de um ser humano esticado, portando o conhecimento escrevinhado à lamina. Havia outras antiguidades. Escritos em argila, madeira e ouro, que datavam de antes do dilúvio, antes do gelo e antes do homem, inscritos por dedos reptilianos.
Outros documentos mais recentes, porém não menos maravilhosos figuravam na coleção do Cofre do Índice, onde os textos vivos são silenciados pelo metal enésimo, cujas propriedades científicas impedem a magia e o sobrenatural de atingirem suas potencialidades. A Constituição Americana revisada pelos homens e mulheres que sempre assinaram Marques de Sade e os Diários de Paganini com suas partituras comentadas, segundo consta, por Asmodeus.
O Papa contemplou o lugar de descanso para a próxima aquisição que integraria à coleção da Santa Sé e mugiu algo incerto.
Depois, seguiu para a Sala Aberta, o único recanto desse refúgio livre do metal enésimo. O recinto onde o papado aplica sua sagrada feitiçaria.
Os homens de confiança de sua santidade o esperavam em torno do caixão do ímpio, com a cartografia das Esferas e dos Círculos, já estudada e resumida em pastas nas mãos dos santos soldados a esperar seu general.
O cardeal norte–americano solicitou a benção de seu líder e tentou lhe dissuadir da missão.
_Sua santidade não precisa conferenciar. Vossa saúde anda frágil.Faça-me vosso delegado...
Não. A cristandade não corria um risco tão terrível desde o levante dos maometanos. Ele era o Papa. Era ele quem deveria conferenciar com seus novos aliados.
Decidido isso, os homens do Papa abriram o esquife do ateu e ao invés do corpo do descrente putrefato, avistaram uma escada para um negrume baixo, como se ali não houvesse magia, mas mágica e fosse um fundo para ilusionistas escapadas de assistentes seminuas de um prestímano de teatro de variedades.
_Existem caminhos conhecidos somente pelos ímpios e prova da fé obriga os justos por vezes a recorrê-los.
Todos os demais concordaram com o Papa:
_Amém!
A comissão de cristo desceu até o submundo**.
Chegaram a um apêndice do Limbo, esmagado entre os céus e os infernos, isolado seguramente de seu restante, para que ninguém indevido ouvisse o que fosse acordado ou proferido.
Eles eram aguardados pelas outras partes, que com sua chegada se completou o concílio.
_Esse católicos... Sempre atrasados.
O Papa ignorou essa provação do representante do governo e da igreja britânica. Seus homens o anunciaram e o saldaram tanto o arrogante embaixador britânico como seu colega estadunidense e o consultor convidado para estabelecer a aliança.
_ Saudações, excelências e santidades. Sou Niccolò Machiavelli, duque de Bugiante, do Oitavo Círculo, à serviço de Aliança de Avernus. Eu irei presidir esse tratado...
Ainda enjoado pela transmigração o Papa não superou a surpresa diante de tal ilustre mediador. Não se detendo, questionou o Patrono dos Pragmáticos.
_Então, foi condenado por seus crimes contra a virtude, de fato, nobre Maquiavel?
_De fato, não, sua santidade.
_ E como está aqui representando quem representa?
_Digamos que a eternidade é peca por ser deveras enfadonha em lugares estáticos.
O Santo Padre se abismou.
_ Sua Santidade bem sabe que a escolha, cada escolha é perfeitamente laureada, seja vil, virtuosa ou além, realista. Minha escolha foi sempre escolher. Então, minha recompensa será o que eu quiser. O tédio no céu aos espíritos inquietos é pior que qualquer lago de betume ardente. Eu escolhi servir a Aliança, porque a política e a música sempre me animam.
_Não entendo.
_Nada mais animado que a política infernal.
_ E a música?
_ Hã... Perdoe-me por usar um chavão típico dos semanários: “O diabo tem as melhores músicas.”
_E a música dos santos e dos anjos?
_São para os santos e os anjos.
O mediador ergueu a mão e do alto desceu o supervisor enviado pelo Céu. O anjo com a bela face renascentista. Uma bela e fria estátua renascentista. Ele pousou e se declarou na totalidade de sua desumanidade.
_Sou Imamaiah, do Quinto Principado. Estou aqui por esse tratado, para observar e selar.
O anjo porta uma moringa e se silencia.
_Antes de começarmos_ continua Maquiavel_ quero confirmar se ambos os lados do pacto estão acordados com todos os termos.
_ A Grã-Bretanha concorda.
_ A administração a qual represento fica feliz em contribuir para esse grande avanço para o homem.
O cardeal norte-americano, agente duplo entre as potências do Vaticano e de Washington, foi muito discreto ao executar o gesto de comprimento de campo secreto maçônico para seu conterrâneo, o qual respondeu de acordo. Ambos os atos foram feitos perfeitos sem ninguém, vivo, morto ou desmorto, perceber, todavia, diante deste último dialogo de Farsa, não resistiu a riscar um risinho e assoprar um comentário baixinho, fazendo de si mesmo seu confidente.
_ Ficaremos muiiito felizes.
Imamaiah o olhou severo. O humor do cardeal murchou como o falo de um velho. O Papa conclui:
_A Igreja abençoa esse ajuste.
_Selemos, então_ Maquiavel apontou para o embaixador inglês_ Por favor, que a Ilha entregue o tomo para a guarda da Pedra.
O representante da grande Ilha retirou o pano de uma bolsa de couro negro um tomo já gasto e o entrega para o monarca da Pedra.
_Tome, cuidado, vossa santidade_ Diz com o desdém tipicamente bretão dos embaixadores britânicos_ Foi demasiado difícil e custoso adquirir esse volume.
O Papa recebe a primeira edição de um escrito por um dos últimos profetas judeus. Suas mãos sentem incômodo o peso que cada página contém.
_ Nós já bem cuidávamos de livros bem antes de conquistar sua ilha, senhor embaixador.
Maquiavel foi censor e calmo.
_Senhores, devo lembra-los que meus serviços são caros e da importância para as potências que representam?
No movimento de crianças repreendidas e envergonhadas, os provocadores se calaram e retornaram ao protocolo.
_A Inglaterra é mão que lhe dá o livro.
_A Igreja é a mão que o guardará.
_ E a América será o punho.
Terminou representante dos Estados Unidos da América, num tom recolhido que não estava antes. Mais aguerrido.
_Que assim seja feito. Selemos.
Maquiavel sinalizou para Imamaiah que saiu de seu poleiro sobre as rochas e foi até os outros. Em meio a estes, ele abriu a moringa e um vapor violeta fugiu de seu interior. Flutuando no ar, a névoa assumiu a forma de um feto a flutuar no vazio.
O anjo declarou, então, com a mesma severidade que declarou a aniquilação de muitos:
_Que a esperança nestas páginas, se fixe nessa página maior!
O livro então incendiou numa chama fria que não queimou as mãos do Papa. O alfarrábio se ardeu e página por página, letra depois de letra, foi transferida e talhada no espectro da criança flutuante que chorava e se extasiava.
_ O que está acontecendo?
Perguntou o embaixador Norte-Americano como se não soubesse de nada dessas Artes. Maquiavel acostumado aos jogos de salão explicou ao participante o que não precisava ser explicado, pois dossiês e projeções sobre o tema não faltavam em nenhum dos lados.
_ Esperanças podem ser presas em livros e sua própria força pode fazer as páginas resistirem por séculos, porém, não é dada comparada a duração quando impressa em uma alma.
O anjo seqüestrou o espírito de um homem preste a nascer para depositar o avatar dessa nova tendência a ameaçar com a vitória da matéria a obra de Cristo e de todos seus pontifícios. Antes se confiscavam livros e neles a esperança ficava encarcerada. Porém, o melhor cárcere que páginas é uma alma, pois como as almas estão ligadas, ela se prende a outras em cadeia, infectando a multidão do mundo com desesperança, seu oposto produzido.
_ Imamaiah devolverá a alma ao corpo e quando criança vier ao mundo, bastará tomá-la. Enquanto ela permanecer sob seu julgo, sua ameaça sempre ficará aquém do que deveria ser. A posse de parte do espírito dessa filosofia sem espíritos a solapará como foram solapadas todas as outras.
_Amém.
Disse o Papa olhando o fogo sem calor em suas mãos.


Em Quito, Equador, semanas depois.
Nenhum vizinho viu mais a família, que desapareceu sem deixar notícias sobre sua partida. O que é estranho considerando quanto os jovens eram participativos e amados na comunidade. Pena. Ela estava grávida e as meninas da rua preparavam um belo enxoval como presente surpresa após o nascimento, o qual já devia ter ocorrido.
Que Deus os abençoe!


No Cofre do Índice, os olhos da cabeça solitária de João Batista fitavam silenciosos e pulsantes, bem interessados na movimentação. Os homens do Papa se encarregaram eles mesmos em trazer a carga para dentro das paredes de metal enésimo, que enfraquece os efeitos das coisas além do homem.
O vidro com o menino foi colocado em cima de seu suporte.
Lá, na estufa de vidro, ele vegetaria pela sua vida, agora imortal, até aquilo que o condenava ser por todos esquecido.
Os ossos do prisioneiro amoldar-se-iam aos limites do invólucro, sondas recolhiam os dejetos e tubos lhe garantiriam a alimentação e medicamentos especiais que amoleceriam seu corpo e mente, fazendo-o um molusco engarrafado.
A despeito de qualquer compaixão que o santo crânio evangelista teve de seu pobre vizinho, ele se alegrou com a perspectiva de após anos de tédio poder passar o tempo lendo o compêndio que no outro foi escrito.
Em sua carne macilenta, amassada, na pele que crescia esbranquiçada, flutuando bruxuleante na no líquido amniótico artificial e analgésico, lia-se em boa letra a terrível teoria agora por bruxedos e químicas contida:
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O Capital


Karl Marx


Prefácios, Cartas e Posfácios.


Prefácio da 1ª Edição (1867).


A obra cujo primeiro volume apresento ao público é a continuação de um trabalho publicado em 1859 sob o titulo: Para a Crítica da Economia Política. O grande hiato que divide as duas publicações deve-se a uma enfermidade de vários anos...


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*Metal oriundo de outra freqüência vibracional de realidade, ‘universo’ paralelo ao nosso dentro do ‘multiverso’, cuja justaposição conosco se dá como tantos outros, por via da sensibilidade artística (quando artistas reproduzem inconscientemente em seus trabalhos aspectos de ‘mundos paralelos’). No caso, o metal enésimo é citado em Histórias em Quadrinhos no Séc XX e foi trazido solidamente para nossa realidade através de Alquimia Quântica pelo honorável Doutor Pietro O. Patha, Cientista filosófico e presidente da Academia do Brumário, conforme o artigo Jornadas e Extrações do Mundo Ficcional, de Sophia “Sappho” Sacco, poetiza, física e terrorista sexual anistiada.

** O encanto necromante em questão foi desenvolvido pela Liga Andina de Bruxas a pedido de trotskistas após a morte do ex-lider do Exercito Vermelho. Visava buscar instruções específicas sobre atividades inacabadas em entrevistas com os próprios Trotsky e Lênin. Tornou-se um dos raros meios já registrados de acesso espiritualista para o ‘céu ateu’ ou o Limbo.

20 de ago de 2007

A Caneta de Camila


Atenção, oficineiros do Diabo!

A brincadeira é a seguinte:

A escritora, ilustradora e super gente fina Camila Fernandes desenhou e eu escrevi inspirado neste momento ilustrado.

Vejam como ficou o nosso escrito desenhado.





Pêssego & Flor


Pêssego dedilha as três cordas da cítara.
O corpo é a curva perfeita sobre palha do tatami (01). Uma dobra circunscrita desde os primeiros tempos para ser mais donairosa do que cômoda. Pêssego paira sobre si mesma, amparada pela música de calar banquetes, fugindo de tudo, buscando o nada. A cabeça remota de impertinências. Destarte, ficaria para sempre, no conforto da ausência... Se aquilo dolorido e persistente não fizesse a carne traidora da alma.
(Mais uma vez)
O dedo é intenso. A corda se quebra.
Pêssego é seqüestrada do reino a flutuar acima das coisas para a Terra sob ele, sólida e inegável.
_É a primeira corda que vejo você quebrar desde...?
Pêssego não percebeu Flor entrar. De repente, uma assistência para a solidão.
_Desde sermos meninas?
_Desde antes de sermos mulheres, Pêssego.
Flor fala a verdade. Cortante. Mas não fere por crueldade e, sim, somente porque o fato é o fato e ele simplesmente corta.
Pêssego depõe a cítara em seu canto de descanso.
A delicadeza é teatral numa vida espetacular.
Flor:
_Decidiu?
_Que há para decidir?
Flor suspira.
_A oferta de seu danna (02).
Agora, a verdade veio orvalhada. Mágoa molhada. Se a levasse com os dedos aos lábios pintados, sentiria o gosto salgado da lágrima. Todavia, Flor não pranteia. Não as vistas da outra.
_Devo dizer a resposta que já sabe, minha irmã?
_Comenta-se que o senhor Yanamoto a deseja muito...
_Está sendo vulgar, Flor.
_O viúvo lamenta pela finada, que não lhe trouxe filhos. Culpa dela, obviamente. No entanto, o senhor Yanamoto acredita, com muita fé, dizem, que sua escolhida, além de ser uma grande mulher de arte, poderá ser também uma mulher de filhos.
_Pare...
_O que diria seu danna ao saber que a natureza lhe forneceu muitas artes, menos a da maternidade...
TAPA!
O golpe corre como corre o relâmpago pelo céu. Rápido. Inesperado. Breve. Aguarda-se o esperado perseguidor do raio. O Trovão. Enfim, o que estava represado transborda e Flor é só água.
Pêssego a fita. Fria. Um primeiro olhar de gelo em seu rosto nevado pela maquiagem. O segundo é um olhar de alma e de carne. A gueixa se desfaz da arte de ser e abraça a mais nova desmoronada e soluçante.
_Desculpe! Desculpe! Não queria que fosse de Yanamoto. Seu lugar é aqui.
_Como eu poderia fazer tal coisa. Você sabe...
_Eu sei, Pêssego. Eu...
_É impossível atender tal pedido.
_Perdoe-me, estou louca... Você queria, não queria?
Pêssego é silencio.
_ Você o aceitaria, não? Vejo como são vocês, quando estão juntos. Vi quando segurou na mão dele quando escreviam sobre o papel, como se o papel fosse o corpo um do outro. Se pudesse...
_Se pudesse, seria outra vida.
_Perdoe-me, estou louca, Pêssego.
_Também padeci por essa loucura.
_Por Yanamoto?
_Também. Porém, ele não foi minha primeira insanidade.
_?
_ A primeira aconteceu quando minha mãe leiloou você, Flor.
Flor a contempla. Pêssego se completa.
_Quando leiloou a última donzela do okiya (03).
Sorriso germinal em Flor.
_Não é verdade.
_Minha loucura naqueles dias de desgosto?
_ Que eu fui a última donzela dessa casa naqueles anos _ Vaticina Flor.
Pêssego deita os olhos. Na mira, mãos alheias, invejadas por não serem as suas, porém amadas por poder tê-las.
_ Na verdade, não fui donzela por muito tempo. Você...
_ O senhor Yanamoto iria se indignar mais ainda.
_ Naquele dia, Flor, quisesse eu ser senhora de todas as estrelas da noite. Navegaria pelo ocaso em uma canoa e laçaria uma a uma com uma rede até ter todas. E, uma a uma, eu daria a minha mãe cobrindo lance por lance. Mas naquela época eu era dela tanto quanto você, talvez mais até. Nem podia lhe dar uma estrela do mar.
_No entanto, deu-me constelações depois...
Flor se solta de toda sua arte em vida. Rola no chão como se não tivesse sido uma gueixa a vida toda, e sim uma gata preguiçosa. Malandra.
_Então, não serei a nova oneesan (04) sobre este teto?
_ Terá que se conformar comigo como tal, Flor, minha irmãzinha.
_É seu por direito.
_Não há “direito”.
_Se ainda dúvida, visite o Kenban (05) e pergunte. Sua mãe deixou para você, a filha. Para quem mais ela deixaria?
_Nosso tipo de...
Pêssego se detém sem força. Flor é forte e conclui.
_Mulher?
_ Nosso tipo de mulher não deve ter filhos. São as boas alunas que herdam.
_Você é a maior aluna.
_ Se soubessem...
_ Não sabem. Você será como sua mãe.
_Não!
_Deixará ir-me pelas ruas desacompanhada?
Pêssego responde a ronha de Flor, ousando uma curva feliz no lábio escuro.
_Não. Saíra respeitosamente, acompanhada.
_Por um homem que confia?
_Pelo que eu mais que confio.
Flor desafia.
_Você?
Flor é deveras desafiante.
_Eu pretendo sair muito, Pêssego. Como me espera me acompanhar tanto e cuidar das outras e do okiya?
_ Você não sairá muito.
Flor e mais um desafio
_ Se um danna meu me quiser, você me dará?
Silêncio.
_ Se um danna meu me quiser como quis o seu, você me dará?
Pêssego novamente é uma fruta cujo sulco é o silêncio.
_Pêssego...
_ Aí está livre para decidir. Teu desejo...
_Meu desejo é o desejo da oneesan dessa casa.
_E qual o desejo da oneesan?
_ A oneesan sabe.
Pêssego se levanta e flutua em passos de imperceptível brisa até ver no espelho o inverso dos arabescos no quimono e no obi (06) devidamente amarrado atrás, em sua cintura.
_ A oneesan conhece mesmo o que deseja?
_Uma mulher deseja, Pêssego?
Flor adentra no reflexo na marcha de uma sombra indicando a quanto vai a morte do dia, grávido da noite.
_...Flor.
E o espelho de cada uma na sala, os olhos em cada órbita, reflete a busca de ambas. Profere Pêssego a verdade dita por sua mãe. Dita por outras. Dita por todas.
_Somos mais que a maioria das mulheres. A nós, é legítimo o desejo.
Flor solta o obi e se desabrocha, fazendo-se de si uma perfeita florida e transmutando por essa magia Pêssego de fruta silenciosa a abelha rainha, com seu ferrão inerente.
_ Disse minha mãe: Sou mais que uma mulher. Sou menos que um homem.
Flor a nega e a afirma.
_Você, mais do que qualquer um, pode ser o que quiser.
Os seios de Flor não são rígidos, quase caem. Porém, são fartos e deleitosos, próprios para alimentar bebês e homens famintos.
Tal qual as duas irmãs de vida e de alma, o desejo e a inveja se urdem fraternos no pulso a ecoar entre os seios planos e sem significado de Pêssego. A fome pelo o que não tem em si e o que pode tomar para si.
_Sou o que minha mãe me fez com o amor e com o egoísmo.
Flor além de tola é sábia.
_Amor e egoísmo são redundantes. Queremos sempre próximo a quem amamos, mesmo aprisionando e o adoecendo. Infelizmente, o okiya não é lugar para meninos.
_É lugar para fêmeas, assim minha mãe me prendeu a ela, fazendo-me filha. Não. Nem filha, mas uma criança que ninguém sabia de onde vinha. E o que eu sou hoje, minha Flor pálida?
_ Uma mulher de arte. Senhora desse okiya. Minha senhora...
Momentos mortos.
_Se quiser... Meu senhor.

Anos anteriores a uma única respiração sequer das pessoas nessa sala, a mãe de quem viria a se chamar Pêssego ofereceu a Arte do Alívio ao seu mais estimado cliente. Não atendeu a um pedido. Para ele bastava a música e o diálogo. Apenas ofereceu seu bem querer desinteressado.
Preparou o assalto do amor como o Senhor da Guerra se prepara para a batalha. A Senhora do Amor traçou estratégias. Cogitou táticas. Ouviu conselheiros.
Comprou o saber das ocultas e singulares ciências sensuais da grande oiran (07).
Do Bordel Verde.
A casa ditosa das mulheres do prazer. A casa cercada por plácidas e prateadas lagoas, cujo fundo é obscuro, pois é profundo. Por onde as crianças temem passar, porque falam que naquelas águas se abrigou um Vampiro do Rio, apaixonado por essas mulheres e seus talentos de ardor e de brasa. Mentiras de esposas solitárias e magoadas, certas que a conhecida predileção desse ser infame por sangue infante afastaria seus pequenos apaixonáveis.
As senhoras da luxúria podiam tomar seus esposos, mas as crianças sempre seriam de suas mães.
A Senhora da Luxúria foi a mestra da Senhora do Amor. Ensinou as quatro dezenas de maneiras diferentes de se amar e de fazer um homem morrer por um momento entre suas pernas.
A esmerada aluna fez a prova, ao algemar o amado em sua tenaz, da qual o cadeado era seus caprichosos calcanhares.
O prisioneiro retribuiu o cárcere, prendendo-a na adamantina liga feminina.
A maternidade.
Entretanto, o danna, cujo nome não deve ser mencionado, não admitiria esse filho.
A dama que o carregava bem sabia. Ele casara um ano antes com a última mulher da casa ao lado da sua, cuja toda família fora tragada pela vida. Ele dobrou o poder que detinha e agora se senta entre homens maiores, dos quais antes nunca encontraria. De boa semente, já fez seu herdeiro. O primeiro varão. O legítimo.
Não poderia permitir um bastardo e a pulverização de sua grande herança.
Tremendo o temor das prenhas fêmeas diante da ameaça que se avizinha, a dama se armou de dupla mentira.
Mentiu ao atribuir a autoria daquilo a levar consigo a outro cliente, do qual o nome também necessitava ser tratado com discrição por variados e justos motivos.
Logrou também ao dizer que quem nasceu não foi mais um varão (os deuses abençoaram a semente desse danna), mas sim uma menina.
Desse modo, a desconfiança do pai fora superada pelo desprezo e pela segurança. Um homem pode tomar o que é seu. O que uma mulher pode fazer?
Suas visitas se escassearam e a mãe se mudou dali, antes que a previdência o fizesse ser mais do que distante, o fizesse inclemente.
Devia ter dado seu filho. Gueixas não são mães. Esposas são mães e essa gueixa não era esposa. Então, mentiria novamente.
Ela não seria mãe. A criança continuaria a ser menina, porém, ela não seria sua filha, seria a compra prematura de uma aluna. Então, não haveria querelas. O menino era uma menina como todas as outras do okiya que montou, só que adquirida antecipadamente. Uma excentricidade talvez duvidosa, no entanto perfeitamente aceitável.
Condenar um homem ao rebaixo mutilado de ser uma mulher não era um crime por demais cruel? Talvez, todavia, para tal infâmia, havia um contrapeso:
Nesses tempos que ser mulher é ser menor que um homem, ser uma Mulher de Arte era ser maior que ser uma mulher de casa. Então, o que melhor uma mulher pode ser do que ser uma gueixa?
Menos que um homem, mais que uma mulher.
Justo? Talvez não. Compensatório? Talvez sim.
A mãe chamou seu fruto de Pêssego, porque seu cheiro era saboroso como a sedutora lembrança de um em todo o seu doce e sua pele era sedosa e suculenta a ponto que lhe gerar um incivilizado desejo de devorá-lo, para alimentar seu amor esvaziado e protegê-lo novamente dentro de si, numa gestação sem fim.

Flor veio depois.
De onde veio e como se chamava, não é relevante a nada. Entrou para a casa antes do sangue lhe eleger mulher. Chamaram-na de Flor. Obviamente porque assim o era e porque é sempre conveniente a uma gueixa ser uma flor.
Aprendeu durante os dias os segredos de ser uma Mulher de Arte.
E aprendeu num dia o segredo de Pêssego, que não era mulher.
Aconteceu fora do okiya, na neve invernal, no banho quente das fontes vulcânicas, sozinhas, observadas apenas pelos macacos brancos das montanhas.
Rapidamente, Flor se despiu e mergulhou no líquido borbulhante.
Pêssego apenas a mirava. Com face interessada na aventura molhada, porém com a cabeça baixa, envergonhada.
Flor, que desde broto era fascinante, a persuadiu com gloria e vitória.
Pêssego abriu o quimono e, livre de tecidos e embustes, juntou-se à amiga no calor da água fervida que da terra vinha.
Foi quando, que por comparação dos dois corpos despidos de tudo, panos, pêlos e segredos, que se viu a verdade.
Flor era côncava e Pêssego era saliente.
Nessa hora mais sincera que nunca, um pacto de amor e de verdade se fizera e elas se fizeram irmãs. Quase únicas. Uma alma una.
Ambas descobriram, anos mais tarde, quando os pêlos e volumes complicaram a tessitura do engano, que o amor delas era amor maior que o da pequena fraternidade.
Ao leiloar a virgindade de Flor para o cliente mais generoso, a mãe de Pêssego cravou na carne e na alma de ambas, uma dor cuja sangria foi de plena simetria.
Depois do triste comércio, uma frente à outra, entre lágrimas e lamentos, confessaram aquilo que somente se revela quando quase se perde.
O artifício se agravou. Sob a farsa da amizade feminina e fraterna, atuavam nas coxias os atores num calmo e quieto ensaio amoroso, quando o estratagema era retirado do jogo para prevalência do gozo.

_Se quiser, Pêssego, será.
A carne.
Chama.
Um laço é desfeito e outro tem o nó reforçado num aperto.
A seda cai.
Obi e quimono se derramam e escorrem pelo chão de palha entrelaçada.
De cada uma, três kanzashis (08) e um pente são retirados, libertando o cabelo sobre a derme hiberna da pele nua, junto com os brincos de casco de tartaruga.
Despidas de sua beleza artificial, as gueixas desaparecem, restando apenas homem e mulher em deleite natural.
Dessa arte candente, Pêssego, encaixe experiente nesse mundo livre a deslizar, faz o que gosta se fazendo de pouco saber. Cabe a Flor, sua contraparte em mais uma atuação de impostura, impor-se e fingir a lhe ensinar o que já foi ensinado, travestindo, por malícia e manha, a ciência bem conhecida em indesculpável ignorância.
A lição é verbalizar o prosaico amar em todas as suas delicadas e agudas flexões.
Inclusive, quando aluna choca a mestra ao compensa-la de súbito pelo o que lhe foi pretensamente revelado, ao lembra-la que ela é ele e ao toma-la, mostrando que quem é, de fato, ela.
Um segredo do corpo por outro segredo do corpo.
Flor, unida com Pêssego, divide o lendário seppun.
O amar com a boca.
A paixão entre os dentes, na ponta da língua, entre os lábios.
O amor a devorar. O amor devorado.
O que os estrangeiros chamam de beijo.

Pula

Pula

Pula

(01) Tatami: Tatame.
(02) Danna: Amante da gueixa. Protetor.
(03) Okiya: Casa das Gueixas.
(04) Oneesan: Gueixa mais velha. Guia das gueixas aprendizes.
(05) Kenban: Cartório de registro e controle das atividades das gueixas
(06) Obi: Cinto usado em conjunto ao quimono.
(07) Oiran: Prostitutas mais experientes, as quais geralmente administravam os bordeis.
(08) Kanzashis: Jóias decorativas para o cabelo.

Fonte:

http://www.culturajaponesa.com.br/htm/gueixa.html

16 de ago de 2007

Coisas do Cabelo
Pula


MONSTRO


de Alexandre Heredia


Ele jogou-o nu no colchão. Imenso. Mãos ásperas. Salivava. Penetrou.
Ai, que dor! Temeu gritar. Bang, bang. Um calor subiu por suas entranhas.
Acabou.

- Já sabe. Bico fechado. Entendeu?

- Entendi, pai.



Alexandre Heredia é escritor e cabeludo.

Quem quiser conferir seus escritos e madeixas, basta tomar um pouco de http://gardenalcomfantauva.blogspot.com/
Recomendado pela Oficina do Diabo e pela Associação de Cabeleireiros Autorais de Bragança Paulista.

14 de ago de 2007

Contos da Areia


Nas praias mais tranqüilas, quando o dia começa a morrer e a noite é parida, a silenciosa areia ainda aquecida tem coisas a nós contar.


Então, um vento sopra a lhe garatujar.


Surgem, num assombro, os arabescos e os segredos.

UM

Num claustro sob o solo, sob os restos da fidalga e grande casa, depois de toda uma dinastia extinguida, morou um senhor o qual tentou levar o fim de seus dias da melhor maneira possível:

Lembrando-se.

Lembrou o melhor e o pior de sua vida até a morte lhe ser servida.
Hoje, entre as orquídeas que pereceram descuidadas, as estantes de livros lidos mais de uma vez, as estátuas baratas de deuses de várias raças, uma ampulheta que nunca mais foi virada e um despertador adormecido, ainda há alguma coisa por lá.

Atente:

Se você for até aquela cela, até um espelho coberto por um lençol e, então, desnudá-lo...

Se você olhar para o espelho com o jeito certo de olhar, encontrará o velho com seus olhos leitosos a lhe encarar...
Ainda a se lembrar

DOIS

O gato mia.

A coruja pia.

A lua alta é vista.

É a hora, meninas!

A hora da feitiçaria!

Na cabana erguida sobre a encruzilhada entre as duas estradas romanas esquecidas, construída com as pedras arrancadas dessas vias, acredita-se equivocadamente que moram lá três mulheres.

Se um intrépido intrometido se arrastar espreito pela relva até a janela, verá:

A gorda matrona de braços grossos e sorriso amigo com sua filha, a bonita jovem de regras recém vindas, meio inocente, meio perdida, e a anciã, a velha, retorcida pelos dias, a árvore cuja seiva se finda.

Verá as três jogando coisas na água fervida e filtrando estranhas bebidas.

Um engano justificado, pois poucos sabem do bruxedo que há muito foi feito.
O trio a perambular pelas prateleiras de vidros cheios de ervas, insetos, sapos, morcegos, cobras, fetos, ossos e cadavéricos dedos é apenas um único ser.

Uma mulher que não queria morrer e traficou com o proibido. Os sombrios e antigos atenderam ao seu pedido com um exótico capricho. Ela foi arremessada fora do tempo. Hoje, suas três grandes idades convivem no mesmo momento, dividindo entre si o conhecimento de cada período vivido, vivendo e a viver.

Cada glória.

Cada tormento.

TRÊS

Há um grande tolo!

Há um grande trapaceiro!

Há um tapeador a vagabundear por ai. Sem destino. Sem desígnio, a não ser seu próprio apetite e a paixão pelo desafio.
Pelo o que peleja?

Pelo lucro?

Pelo gosto do logro!

Pelo deleite de dobrar os homens de bem, tomar suas posses, seus sítios, suas mulheres, apenas para lhes arrancar e depois abandonar como se o suado ganho de uma vida honesta fosse simples tralha.

Quantos gritaram segurando o próprio rosto, desesperados de ódio e desgosto, quando se descobriram enganados por aquele andarilho de sorriso charmoso e olhar malicioso?

O bastante para saciar a fome de todos os cemitérios!

Quando a falácia e a lábia lhe entediaram, o pulha aprendeu as Artes e as Ciências.

Agora, verga também a natureza e a supernatureza ao peso de sua safada sutileza.

Resgatou os manuais enterrados e afundados dos magos, devassou o arcano do corpo humano ao abrir os mortos saqueados, tratou com djins, ifrits, demônios e mais o que havia sido aprisionado e selado por Salomão, o abençoado, e olhou para céus estrelados, cujos terrores sublimes foram relatados por ele num grande livro pesado.
Com o fruto de tais estudos conjugados ao seu talento para o pecado, conseguiu o impensável:
Enganou Deus e o Diabo num golpe memorável.

Conseguiu de ambos um contrato assinado, o qual incluía, além de favores dos dois lados para seu gozo inesgotável, a promessa eterna que a humanidade estaria livre das duas potências e suas alianças.

Esse documento, A Alforria do Homem, como foi chamado, é a herança do embusteiro mor e seu paradeiro é um mistério, pois os anjos e os diabos se conciliaram em diligências para encontra-lo e queima-lo.

A cada ano, a um pilantra, a um vigarista, a um espertalhão, o manuscrito é confiado; e por ele protegido, com seus truques e rocamboles, nos livrando tanto do julgo do Inferno maldito quanto do Céu bendito.

28 de jul de 2007

Furiosas Fábulas, oh, Fábulas Furiosas!

Unção & Empalação

Num dia, num abençoado dia, os cristãos mataram o último bárbaro com fé alienígena a sua e oraram em infante alegria.

pula
No entanto, quando o ardor fraquejou e o silvo do silêncio dominou, eles se entreolharam.

Ainda cobertos de sangue e restos de ossos e carne humana, descobriram que, apesar de irem irmanados à guerra em nome do mesmo deus do amor e do perdão, eles também eram diferentes entre si.
Detalhes. Os detalhes que fendem as falanges.
Então, eles mais uma vez odiaram.
Por pequenas querelas eles se odiaram grandiosamente e foram à guerra novamente.
Agora entre si, aliviados por escaparem da falta de um propósito vital, encontraram-se entre as ravinas para manufaturar a morte em escala mais uma vez colossal, certos de quem subisse na colina da calamidade e fincasse o estandarte seria o favorito do Bendito.

pula
Entretanto, tal foi o esmero dos empreiteiros da pilha cadavérica que ela se ergueu tão aos céus. E como Babel desmoronou. E todos quedaram matraqueando em uma só língua:
O lamento.
Nisso, quando todos os guerreiros de Deus estavam ao chão, já rendidos ao Rei Verme ou clamando por auxílio a aquilo que já estava perdido, os ímpios saíram dos esconderijos.
Os ateus, escondidos nas secretas câmaras intestinas do planeta, quando não ouviram mais as músicas marciais abriram suas escotilhas e foram tomar o que lhes pertencia.
Quando todos os crentes marcharam, os descrentes se refugiaram, certos de já antever o final do melodrama.
E sob o solo, sob a luz das lanternas e das velas, fabricaram longas lanças de afiadas lâminas.
pula
Ao retomar o dia, erguem grandes fogueiras para os mortos à noite, onde sobre a lenha defunta a cremar, os céticos arremessam os fieis que ainda insistem respirar.
Espetam os feridos sem descriminação dando a morte como cura para dor e alívio para loucura.
Perfuram sem preconceitos, fazendo isso sem desprezo, na verdade a fatalidade e por profundo respeito, dando ao cristão a concretização de seu desejo, de seu prêmio:
Céu, purgatório ou inferno.
(E reencarnação, para os espíritas positivistas, porque, não?)
Quando tudo terminou, quando empalados nas pontas de seus compridos dardos ao fogo foram lançados
pula
pula
o último soldado furioso, a última matrona magoada, o último sacerdote desgostoso, a última virgem não violada, a última criança batizada e não persistiu mais nada, além de cinzas e restos de brasas, os ímpios tiveram a certeza que podiam começar o mundo de novo sem nada de tolo servindo de estorvo, pois, enfim, finda estava sua conspiração pela felicidade, ofertando a cada homem seu tipo predileto de eternidade.

pula

Aos espiritulalistas, o eterno que há de advir, esperando por eles no mundo porvir.


E aos materialistas, o eterno que agora na vilã Terra pagã hão de construir.

19 de jul de 2007

Conto mau, mau conto... Já p/ canto!


Sodomia Bacante



Como se a vida se resumisse nisso, um casal de marca Sade & Masoch registrada decidiu de modo claro pela cena eterna dessas malditas práticas.
24/07/365!
Dia todo, semana toda, ano todo, todo ano, toda semana, todo dia.
Felizes para sempre na masmorra, enquanto o amor durasse, enquanto a vida durasse, enquanto a carne durasse, durar-se –ia a relação dura e adamantina.
Porém, caprichosos, não se abstiveram de seus deveres e prazeres da vida sabor baunilha.
Trabalhavam em casa em profissões bem pagas e, logo, mui ricos entre os colegas do burgo eram.
Viviam mui bem, apreciando o que melhor há em se bem viver.
Adoravam quadros e vinhos raros.
Além de arte em carne, feito com dor para refinar a natureza e obter a beleza arabesca da forma grotesca.
A Mulher, a Dominadora, a Humilhatrix, Dona Karmina, era a escultora.
E o homem, pobre homem, Jerônimo {K},era mármore.
E os cinzéis da Rainha eram a agulha fria, o ferro quente, o bisturi fino e a caustica soda. Ferramentas de deformar, as quais escarificavam seu inferior amor. O antigo corpo natural a se reformar em novo corpo artificial.
Certo dia, na mais manhosa patifaria, ela optou em juntar a agulha fria a uma preta linha. Deu um último e demorado beijo em seu escravo e, numa costura de perfeita urdidura, cerrou para sempre os lábios do objeto abjetamente amado.
Ficou horrível, ficou lindo, o reles escravo, na verdade, seu príncipe encantado, transformado em sapo de boca costurada, perfeito para um despacho.
Então, para falar, para comer e para não morrer, os dois fizeram vários esquemas previdentes na traquéia e na laringe com a ajuda de um perverso médico amante do coito com choque elétrico. Assim podia falar o bichinho da rainha com voz de maquinaria maligna e comer certa papa mastigada através de um interstício no pescoço. Coleira cirúrgica? Quiçá...
Porém, tal invenção teve de colateral uma restrição que muito magoou Jerônimo {K},o escravo de Karmina.
E escravo se magoa, coisa louca?
Magoa, sim. E quando se magoa ai de ti, pobre Dominatrix!
Os vinhos que tanto amava!
Não podia mais ingeri-los. O sabor já estava perdido, sobrava o cheiro na hora de bebê-los, porém o gástrico refluxo não permitia a ele o líquido retê-lo e tudo em sangrenta erupção magmática voltava.
E revoltava.
E Jerônimo {K} vomitava aquilo que considerava ouro líquido.
Será que o projeto 24/7/365 estava perdido?
Nada. Engenhosa é a mulher quando precisa salvar o amor e esmagar o amado.
Estava ele no leito algemado, com o cu para alto, bem escancarado, profundo furo escuro, toca de tatu, buraco negro, túnel de minhoca, cratera quântica, disposto a tudo, da areia ao veludo, esperando a ação na qual se daria a solução.
Dona Karmina abriu a garrafa do melhor tinto (mui frio para o branco gelado, risco de resfriado) e passou o gargalo pelo nariz do aprisionado. Quando este já se nutriu de todo deleitoso aroma, ela depositou o que lhe cabia em uma única taça e o resto na bolsa para água quente, aquela de borracha grossa, a fim de esquentar os pés nas noites invernais e de carregar os líquidos para as higiênicas e medicinais aplicações retais na forma de infusões anais.
Sim, o vinho foi direto pelo tubo, então enfiado no rabo do escravo. Embriagando-o! Numa engenhosa enema alcoólica, numa divertida e bacante sodomia intestina.
Pula

E ambos saborearam o delicioso vinho, cada qual levando ao fígado pelo orifício que é lhe devido, de quem está por cima e de quem está por baixo, de quem domina e de quem é fodido.

16 de jul de 2007

Meme, a Mamada Literária.



Esse Alexandre, vulgo Cabelo, além de tomar gardenal com fanta uva (totalmente demodê já que o must da babação de ovo do verão é H2O com luvox)é um invejoso. Apropriou-se desse tal de meme e me convidou para essa aventura sem me explicar que porra é essa. Sentia-me como um cara convocado para ir a uma emboscada sexual no banheiro de uma prisão masculina _ Se fosse feminina tava nem ai.

Desafio aceito!

Agora vou ter que me virar e pegar o sabonete sem me agachar.



Diário de um Ladrão - Jean Genet



Eu era um garoto puro quando li esse livro aos 14 anos e... Mentira, já era um pervertidozinho. É a autobiografia do grande escritor e dramaturgo francês. Vagabundo, ladrão e prostituto. Perfeita fórmula para se fazer um artista, não. Esse livro me marcou pela perspectiva da exclusão de um individuo dentro do corpo social, ao mesmo tempo em que interagia com esse, quando os burgueses iam atrás de SEU corpo e ele os antendia ou assaltava. Uma visão esse é o fato, sem choramingos melodramáticos. Outro ponto é a liberdade e a crueza como trata do sexo, ao relatá-lo como mercadoria, instrumento de poder e fonte de prazer. Um puto que goza quando relata sua putaria forçada pela vida.

Histórias Extraordinárias - Edgar A. Poe



Precisa falar? Esse bêbado de sarjeta, esse jogador azarado, esse maldito melancólico é o pai da forma conto moderno e da teoria do conto moderno. Além de percussor dos gêneros do terror e policial. O gato preto, o barril de Amontillado, a queda da casa de Usher, os crimes da rua morgue I e II, são escritos obrigatórios para qualquer um que se proponha a escrever coisas interessantes sobre gente. Figurinha carimbada no TOP 10 de qualquer franga gótica metida a William Blake dos pobres, Poe, ao contrário dos que o vêm apenas como autor de terror(terror=historinha de fantasminha. buuu!) ele é o relator da modernidade, da solidão da multidão e do sofrimento do individualismo pequeno-burguês.


O País de Outubro - Ray Bradbury


Tradição do bom conto fantástico estadunidense. Além de nos apresentar uma realidade que se dobra ora em horror, ora em maravilha, ele arquiteta quem está transitando por esse mundo com um teor de humanidade e de conflito tão forte que o distanciamento ético fica complicado. Além, o cabra é de esquerda. A verdadeira esquerda. Humanismo. Inimigo dos totalitarismos de todos os tipos. Do stalinismo ao americanismo. Seu filho deve lê-lo para não sair por ai à noite espancando puta e empregada.


Os Sertões - Euclides da Cunha


Um dos cinco mais importantes livros do Brasil. Onde não só os personagens se transformam, mas o autor-narador. Quando o racista e arrogante positivista ao relatar esse grande conflito cai do cavalo e se curva diante da determinação trágica do mestiço.
É um catatau e, como dizem, a parte da Terra, a primeira, pode ser uma pedreira, mas leia em voz alta. Como os irmãos Campos demonstraram, se o Sertões fosse em verso seria um dos grandes poemas épicos da humanidade.

O Processo - Kafka


Rápido e rasteiro. Kafka é o autor da alma do século XX. Eu considero um livro de terror absoluto, apesar de não ter bichinhos sobrenaturais e assassinos individualistas em suas páginas. E foi o único livro de terror que me assustou de verdade, assim como a grandiosa adaptação de Orson Wells para o cinema. Li o Processo de cuzinho trancado do começo ao final.
E agora resta desafiar outros. Vamos lá.

Paulo Castro -
Vazamentos de Vapores
Amanda Vieira -
Videoideia
Roberto Gobatto -
Roberto Gobatto
Patrícia Soares -
P a t r í c i a S o a r e s
Rogério Augusto -
Além da Rua

Lutem!!!

Que dizer: Listem!!!

A vida é um game.
A morte é um game over.
Esperança é um crédito a mais em uma jogada.
E poesia ruim é com a gente mesmo.